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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Uma briga de casal no carnaval

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”


Kaique quis naquele ano passar o carnaval no litoral como a maioria de seus amigos. Viviane quis passar o carnaval nas montanhas em retiro como a maioria de seus amigos. E pronto o impasse estava criado.
Haviam se casado há dois anos e pela primeira vez enfrentavam um desgaste.

- Viviane porque não vamos variar esse ano. Faz cinco anos que a gente passa o carnaval na serra. Como você sempre quer!

- Eu não gosto de gente, muita gente. Quero sossego.

Não havia acordo.
Por fim entre tantos argumentos. Kaique foi para passar o carnaval com os amigos no litoral. E Viviane foi para a Serra da Mantiqueira com os amigos. Aproveitou para descansar, fazer caminhadas sobre remanescentes da mata Atlântica e botar em dia sua leitura de Clarice Lispector que tanto amavas. Realmente ler Clarice Lispector é estruturante.
Kaique curtiu a praia, churrasco, noitadas de carnaval. Realmente a praia é muito relaxante.

Por fim no último dia de Carnaval caiu uma chuva desigual em todo sudeste do país. Kaique e seus amigos conseguiram voltar para a cidade de São Paulo, mas Viviane permaneceu na Serra da Mantiqueira. Houve um deslizamento que impediu que todos deixassem a região. Mas estava tudo bem com ela.  Na verdade Viviane nunca se sentiu tão bem quanto ser dona de seus gostos e prazeres. Mas sentia falta de Kaique.

Ele voltou para casa e se viu só no apartamento. Divertiu-se na praia com os amigos, mas gostava de mais de Viviane. Sentia sua falta.  E aguardava com ansiedade a sua volta. E enquanto isso descobriu um livro de Clarice Lispector que ela tanto gostava. O leu de uma noite a outra.
E descobriu que a simetria de Viviane lhe era fundamental.

Quando ela voltou três dias depois do fim do carnaval. Ele a abraçou demoradamente aliviado em sua alma por tê-la em sua vida.

- Você fez falta em minha geografia interna! Sabia!

- Nossa! Você leu Clarice Lispector!

- Li! Eu precisava ter algo de você na solidão dos meus dias aqui! E sabe de uma coisa eu não consegui sair com os amigos nesses dias. Quando saio com os amigos sabendo que você está em minha vida eu fico mais tranquilo, me divirto mais porque sei que há alguém em minha vida.

- Eu senti a sua falta, mas fiquei tranquila lá. Sabia que havia você em minha vida.

Ela então tomou seu tablet e leu uma de sua frase preferida de Clarice Lispector.


"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”


- Entendeu.

- Claro. Perfeitamente, perfeitamente para mim.

- E para mim também.

Certamente nunca concordariam com tudo e brigaram novamente, mas sabiam que as incompreensões e atritos também existem e que não impedem o que um sentia para o outro.




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sábado, 25 de julho de 2020

Conversa com a avó.


Lembro-me sempre, e nunca vou esquecer-me da última conversa que tive com a minha avó. Ela morreu aos 94 anos e muito lúcida.

Falávamos de trivialidades quando a conversa veio para um tom mais filosófico:

A minha avó como a grande maioria desse país foi imigrante. E deixou a sua terra natal, Portugal, ainda menina as 13 anos.

Ela sentiu medo, muito medo de vir para uma terra nova, desconhecida para ela. Mesmo estando ao lado de sua família.

“Tive medo, mas tive que vir” – me disse ela. E lá ela deixou amigos, parentes, sabores e aromas.

“Não tinha outro jeito, tinha que acompanhar os meus pais”

Ela não me pareceu ressentida.

“foi um medo grande, inclusive um medo em entrar no imenso navio e por dias somente ver o mar”.

“Eu tive que enfrentar esse medo, e comecei a apreender que não vida não adianta muito a gente ter medo, o que tiver que acontecer vai acontecer mesmo”.

“Eu estava com medo, o meu pai não. Acho que ele veio sem medo por que enfrentou o medo de deixar a sua terra. Ele tinha mais medo que morrêssemos de fome. É que naqueles dias a Europa estava em guerra, todo mundo sofria e o Brasil parecia o paraíso”.

“E fui apreendendo que podemos sentir medo, mas medos após medo às coisas vão acontecendo”. E então faça o que tem que ser feito o que desejar. Medo à gente vai sentir mesmo. E daí a vida não tá nem ai para os nossos medos. E com ou sem medo, viemos para o Brasil e aqui eu me casei, crie 10 filhos netos e fui feliz. Apreendi que medo é apenas medo.

E com o tempo em minha vida, as palavras de minha avó foram se confirmando. Besteira ter medo. Temos que seguir enfrente.


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O Primeiro encontro e o medo do outro.

  Um encontro, um novo emprego, um novo ser que entra em nossa família, sempre nos trás um pouquinho do medo desse ser novo que entra em nos...